São Marcos e a Memória Cristã Africana: Thomas C. Oden e a Revalorização do Cristianismo Africano Primitivo

Autor: Charles Alberto Barbosa de Souza - Focolarino, cadeira 27 de Academia Brasileira de Hagiologia. 14 Abr 2026
Hagiologia Cristianismo Africano Patrística Pós-colonialismo
São Marcos e a Memória Cristã Africana

O presente artigo analisa a interpretação de Thomas C. Oden sobre São Marcos evangelista e sua relevância para a formação do cristianismo africano primitivo. A partir da noção de "memória africana de Marcos", o estudo evidencia como tradições coptas e egípcias reinterpretam a origem do cristianismo como profundamente enraizada na África. Argumenta-se que essa perspectiva possui implicações antropológicas relevantes para a compreensão da identidade cristã contemporânea, especialmente nas igrejas africanas e afro-diaspóricas. Destacam-se impactos culturais, eclesiais e ecumênicos, além de contribuições para a pastoral afro-brasileira. O estudo demonstra que a leitura de Oden recoloca a África como sujeito constitutivo da história cristã primitiva. Este artigo analisa a tradição de São Marcos no contexto da memória cristã africana primitiva a partir da abordagem histórico-teológica de Thomas C. Oden, especialmente sua proposta de recuperação da África como matriz formativa do cristianismo antigo. A discussão articula contribuições da patrística africana, da tradição alexandrina e da hermenêutica de memória e identidade religiosa. Em perspectiva crítica, são apresentadas objeções de abordagens pós-coloniais e historiográficas contemporâneas que problematizam tanto o uso das fontes patrísticas quanto a tendência de reconstruções teológicas idealizadas do cristianismo africano primitivo. Conclui-se que a figura de Marcos, embora envolta em tradições hagiográficas, permanece um eixo simbólico importante para compreender processos de inculturação, formação institucional da Igreja e construção de identidades cristãs africanas.

Introdução

A historiografia cristã moderna foi amplamente marcada por interpretações eurocêntricas que marginalizaram o papel da África na formação do cristianismo primitivo. Em contraposição, Thomas C. Oden propõe uma releitura da tradição patrística a partir do conceito de "memória africana", na qual São Marcos ocupa papel fundacional.

Em sua obra The African Memory of Mark: Reassessing Early Church Tradition (2011), Oden afirma que a tradição copta preserva uma narrativa contínua sobre Marcos como evangelizador e fundador da Igreja em Alexandria. Segundo ele, essa tradição não pode ser reduzida a mera lenda, pois constitui um sistema histórico de transmissão oral e litúrgica.

"A memória africana de Marcos é uma tradição cumulativa preservada em textos litúrgicos, arqueologia e transmissão oral"

— Thomas C. Oden, The African Memory of Mark, 2011, cap. 2

A tradição cristã africana antiga atribui a São Marcos um papel fundador na evangelização do Egito e na formação da Igreja de Alexandria. Essa memória não é apenas histórica, mas também antropológica: ela opera como estrutura simbólica de identidade e autoridade religiosa. No campo da teologia contemporânea, Thomas C. Oden propõe uma reavaliação do cristianismo antigo africano como elemento constitutivo do pensamento cristão global, deslocando o eixo interpretativo eurocêntrico.

Em obras como How Africa Shaped the Christian Mind (Oden, 2007), o autor argumenta que a África não é periferia, mas berço intelectual e espiritual do cristianismo antigo. Nesse contexto, a figura de Marcos emerge como mediador entre tradição apostólica e institucionalização eclesial no norte da África, especialmente em Alexandria.

Do ponto de vista antropológico, trata-se de investigar como narrativas sobre Marcos funcionam como "memória social sagrada", isto é, como construções simbólicas que organizam pertença, autoridade e continuidade histórica em comunidades cristãs africanas e afro-diaspóricas.

São Marcos e o cristianismo africano primitivo
A tradição apostólica de Marcos na África antiga

1. Marcos e o cristianismo africano primitivo

Na memória viva das comunidades cristãs africanas antigas, o evangelista Marcos é lembrado não apenas como autor do primeiro evangelho, mas como testemunha profundamente ligada ao continente africano, especialmente a Alexandria, onde teria fundado uma das primeiras igrejas. Segundo tradições transmitidas entre comunidades copta e etíope, sua trajetória começa em Jerusalém, na casa de Maria, mãe de João Marcos, onde ocorreu a última ceia celebrada entre os discípulos e onde se guardou a memória do Cristo ressuscitado.

Transportado pela missão apostólica, Marcos teria acompanhado Pedro e depois se dirigido ao norte da África, onde a cidade de Alexandria se tornaria o grande centro de sua pregação, diálogo cultural e formação de uma identidade cristã enraizada nas línguas e símbolos locais. Ali, segundo antigas tradições, Marcos enfrentou perseguições, foi preso durante celebrações pascais e arrastado pelas ruas de Alexandria até o martírio, oferecendo sua vida como semente do cristianismo africano primitivo, cuja memória permaneceu viva nas liturgias copta e etíope como testemunho de fidelidade e coragem missionária que ecoa até hoje nas comunidades cristãs do continente como fundamento espiritual e histórico da presença apostólica em solo africano na formação da Igreja antiga e sua expansão missionária inicial na África antiga

Oden sustenta que o cristianismo africano não é derivado, mas originário em sua forma patrística inicial, especialmente no Egito e no Norte da África. A tradição afirma que Marcos teria evangelizado Alexandria, estabelecendo uma comunidade apostólica estruturante.

"Marcos é compreendido na tradição africana como o pai apostólico da Igreja de Alexandria"

— Thomas C. Oden, The African Memory of Mark, 2011, cap. 3

Essa afirmação reposiciona a África não como periferia, mas como centro teológico inicial do cristianismo antigo. A tradição copta e etíope sustenta que Marcos teria fundado a Igreja de Alexandria no século I, estabelecendo uma linhagem apostólica que se tornaria uma das mais importantes do cristianismo antigo.

Embora os dados históricos sejam limitados e mediados por fontes hagiográficas, a persistência dessa narrativa indica sua força antropológica. Nesse sentido, Marcos não é apenas um indivíduo histórico, mas um "marcador de origem", funcionando como dispositivo simbólico de legitimação eclesial. A tradição da sua morte martirial em Alexandria reforça esse papel, associando o sofrimento à autenticidade da fé.

Thomas C. Oden defende que a patrística africana foi decisiva na formação da teologia cristã global. Para ele, autores como Agostinho de Hipona, Tertuliano e Orígenes (ligado à escola alexandrina) demonstram a centralidade africana na elaboração doutrinal do cristianismo antigo (Oden, 2007).

Dentro dessa lógica, a figura de Marcos é interpretada como parte de um fluxo apostólico que conecta Jerusalém, Antioquia e Alexandria. Oden enfatiza a continuidade entre cristianismo primitivo e tradição africana, criticando a marginalização moderna dessa herança. Sua proposta pode ser sintetizada como uma "reintegração da África na história intelectual do cristianismo", onde Marcos funciona como símbolo originário da evangelização africana e da formação de uma espiritualidade encarnada no contexto mediterrâneo-africano.

A memória de Marcos na tradição copta
A transmissão oral e litúrgica da memória de Marcos

A abordagem de Oden dialoga com a antropologia da religião ao reconhecer a centralidade da oralidade nas culturas africanas. A transmissão da fé não se dá apenas por documentos escritos, mas por memória coletiva, liturgia e prática social. Esse ponto converge com leituras antropológicas clássicas sobre cultura e religião como sistemas simbólicos vivos, nos quais a memória é forma de identidade.

Sob uma perspectiva antropológica (Geertz, Asad, Connerton), a memória de Marcos opera como ritualização narrativa. A tradição da "casa de Maria" e da "última ceia" associada ao seu círculo familiar funciona como espaço de origem comunitária, enquanto o martírio em Alexandria estrutura a memória do sofrimento fundador. Esses elementos não devem ser lidos apenas como fatos históricos, mas como sistemas simbólicos de produção de sentido. A memória de Marcos organiza três dimensões fundamentais:

As igrejas africanas contemporâneas utilizam essa tradição como fundamento de identidade teológica autônoma. A leitura de Marcos como figura africana fortalece discursos de descolonização da fé cristã e de valorização das raízes locais do cristianismo.

"Sem a África, perde-se parte essencial da memória cristã primitiva e de sua formação histórica"

— Thomas C. Oden, How Africa Shaped the Christian Mind, 2007, síntese argumentativa

2. Ecumenismo e reconfiguração histórica do cristianismo

A revalorização de Marcos na tradição africana tem impacto direto no diálogo ecumênico, pois desafia narrativas exclusivas do cristianismo ocidental. O reconhecimento da África como espaço originário amplia a compreensão da catolicidade da Igreja. Nesse sentido, o cristianismo não pode ser entendido como fenômeno exclusivamente europeu, mas como tradição transcontinental desde suas origens.

No contexto afro-brasileiro, essa perspectiva contribui para uma teologia mais enraizada na ancestralidade africana, fortalecendo práticas pastorais inculturadas. As religiões afro-cristãs e comunidades negras cristãs encontram nessa leitura um eixo de afirmação identitária e resistência simbólica.

Ecumenismo e cristianismo africano
O diálogo ecumênico e a reconfiguração da memória cristã

3. Críticas acadêmicas a Thomas C. Oden

Apesar da relevância de sua proposta, Oden é alvo de críticas importantes na academia contemporânea.

3.1 Crítica historiográfica: autores como Elizabeth Clark apontam que Oden tende a revalorizar a patrística com forte viés teológico, reduzindo a complexidade histórica das fontes a uma narrativa de continuidade homogênea.

3.2 Crítica pós-colonial: estudiosos como Kwame Bediako e Lamin Sanneh, embora reconheçam a importância da África cristã antiga, alertam para o risco de substituir um eurocentrismo por um "afrocentrismo apologético", onde a reconstrução histórica serve mais à identidade contemporânea do que à crítica documental rigorosa.

3.3 Crítica metodológica: Andrew Walls enfatiza que a história do cristianismo deve ser entendida como processo de "tradução cultural", evitando narrativas lineares de origem pura. Nesse sentido, a figura de Marcos deve ser tratada como tradição interpretativa plural, e não como ponto fixo de fundação.

3.4 Crítica antropológica: algumas abordagens consideram que Oden tende a essencializar "África" como unidade teológica, ignorando a diversidade cultural, linguística e política do cristianismo africano antigo.

Conclusão

A partir dessas críticas, pode-se afirmar que a proposta de Oden é mais valiosa como reconfiguração hermenêutica do que como reconstrução histórica estrita. Ela permite recolocar a África no centro do debate teológico, mas exige cautela metodológica para não transformar tradição em prova histórica literal. A análise da obra de Thomas C. Oden permite compreender São Marcos como figura central na reconstrução da memória cristã africana. Sua proposta não apenas reinterpreta a origem do cristianismo, mas também desloca o eixo epistemológico da história eclesiástica.

A valorização da África como espaço fundador do cristianismo primitivo possui profundas implicações antropológicas, teológicas e pastorais. Ela contribui para a superação de modelos eurocêntricos e fortalece processos contemporâneos de afirmação identitária nas igrejas africanas e afro-brasileiras. Assim, o cristianismo emerge não como religião importada à África, mas como tradição profundamente atravessada por ela desde suas origens. Sendo assim, a figura de São Marcos, no contexto da memória cristã africana, deve ser compreendida como eixo simbólico de formação identitária, mais do que como biografia historicamente verificável em sentido estrito. A leitura de Thomas C. Oden contribui significativamente ao recuperar a centralidade africana na história do cristianismo antigo, especialmente ao destacar a importância da escola alexandrina e da patrística africana.

Entretanto, a recepção crítica contemporânea mostra que tal abordagem precisa ser equilibrada por métodos historiográficos rigorosos e perspectivas pós-coloniais que evitem tanto o eurocentrismo clássico quanto novas formas de essencialização identitária.

Marcos permanece como figura liminar: entre história e memória, entre Jerusalém e Alexandria, entre tradição apostólica e construção simbólica. Sua relevância para a antropologia do cristianismo reside justamente nessa tensão produtiva, que continua a alimentar identidades cristãs africanas e diásporas afrodescendentes na atualidade.

Referências bibliográficas

  • ASAD, Talal. Genealogies of Religion. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1993.
  • BEDIAKO, Kwame. Christianity in Africa: The Renewal of a Non-Western Religion. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1995.
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  • CONNERTON, Paul. How Societies Remember. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
  • GEERTZ, Clifford. The Interpretation of Cultures. New York: Basic Books, 1973.
  • SANNEH, Lamin. Translating the Message. Maryknoll: Orbis Books, 1989.
  • WALLS, Andrew F. The Missionary Movement in Christian History. Maryknoll: Orbis Books, 1996.
  • ODEN, Thomas C. How Africa Shaped the Christian Mind: Rediscovering the African Seedbed of Western Christianity. Downers Grove: IVP Academic, 2007.
  • ODEN, Thomas C. The African Memory of Mark. Downers Grove: IVP Academic, 2011.
  • OLIVER, Willem. "Mark the Evangelist: His African Memory". HTS Teologiese Studies/Theological Studies, v. 72, n. 4, 2016. (HTS Teológicas)

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