Durante longo período, a historiografia eurocêntrica sustentou a falsa concepção de que a África subsaariana anterior ao colonialismo europeu seria composta predominantemente por sociedades economicamente rudimentares e culturalmente estáticas. As pesquisas reunidas na coleção História Geral da África, organizada pela UNESCO sob a direção de Bethwell Allan Ogot, demonstram precisamente o contrário. A partir do século XII, os povos bantos protagonizaram um extraordinário processo de desenvolvimento agrícola, tecnológico, urbano, artístico e comercial, estruturando Estados complexos e integrando amplas redes internacionais de circulação de mercadorias, conhecimentos e pessoas. Este artigo analisa a economia, os sistemas produtivos, a arquitetura, a arte, a ciência, as rotas comerciais e os intercâmbios culturais das sociedades bantas entre os séculos XII e XVI, evidenciando seu papel central na formação histórica do continente africano.
Introdução
Nas últimas décadas, a renovação dos estudos africanos promoveu profunda revisão dos paradigmas historiográficos tradicionais. A coleção História Geral da África, publicada pela UNESCO e organizada por Bethwell Allan Ogot, representa um dos maiores empreendimentos científicos internacionais dedicados à reconstrução da história africana a partir de perspectivas internas ao continente.
Os estudos ali reunidos demonstram que os povos bantos constituíram um dos maiores fenômenos civilizatórios da história mundial. Sua expansão territorial, iniciada muitos séculos antes da era cristã, alcançou enorme maturidade política, econômica e cultural entre os séculos XII e XVI, período caracterizado pela formação de grandes reinos, intensificação das redes comerciais e extraordinário desenvolvimento tecnológico.
Muito além da imagem simplificadora construída durante o colonialismo europeu, as sociedades bantas apresentavam elevada especialização agrícola, metalúrgica, artística e arquitetônica, articulando economias regionais altamente diversificadas com circuitos comerciais que conectavam o interior da África às costas do Atlântico e do Oceano Índico.
1. A consolidação das civilizações bantas
Segundo Bethwell Allan Ogot (2010), o século XII representa importante marco na consolidação dos grandes Estados africanos da região centro-meridional. Nesse período observa-se: expansão demográfica; aperfeiçoamento agrícola; intensificação da metalurgia; crescimento urbano; fortalecimento das instituições políticas; ampliação das redes comerciais. A unidade linguística banta nunca significou homogeneidade cultural. Pelo contrário, desenvolveu-se uma extraordinária diversidade de sociedades adaptadas aos diferentes ecossistemas africanos.
A base da economia banta era profundamente agrícola. Os estudos da UNESCO demonstram que diferentes regiões desenvolveram sofisticados sistemas produtivos adaptados às condições ecológicas locais. Cultivavam-se: milhete; sorgo; inhame; banana; feijão; óleo de palma; cana; mandioca (posteriormente); milho (após os contatos atlânticos).
Em diversas regiões praticavam-se técnicas avançadas de: rotação agrícola; pousio controlado; irrigação; proveitamento das cheias; fertilização natural. Segundo a História Geral da África, a agricultura constituía verdadeiro sistema científico de observação dos ciclos naturais, transmitido entre gerações.
2. Pecuária e manejo ambiental
Nas regiões de savana desenvolveu-se importante economia pastoril. Criavam-se: bovinos; caprinos; ovinos. O gado desempenhava funções econômicas, alimentares, religiosas e políticas. Além da produção de carne e leite, constituía importante reserva de riqueza utilizada em: casamentos; alianças políticas; compensações jurídicas; cerimônias rituais. O manejo dos rebanhos seguia profundo conhecimento ecológico dos ciclos das chuvas e das pastagens.
Uma das maiores contribuições dos povos bantos foi a metalurgia. Muito antes da chegada dos europeus, diversas regiões dominavam completamente: mineração; fundição; forjamento; tratamento térmico dos metais. Produziam-se: ferro; cobre; bronze; ouro. A metalurgia abastecia: agricultura; construção; guerra; comércio; produção artística. Ferramentas agrícolas aumentaram significativamente a produtividade dos campos. Segundo a coleção da UNESCO, determinadas regiões da África Central possuíam algumas das mais sofisticadas tradições metalúrgicas do mundo medieval.
3. Artesanato e produção especializada
A economia banta caracterizava-se por elevada divisão social do trabalho. Existiam especialistas em: cerâmica; tecelagem; cestaria; escultura; fundição; lapidação e produção de instrumentos musicais. Diversos centros urbanos tornaram-se conhecidos pela excelência artesanal. As esculturas em madeira e marfim alcançaram elevado refinamento estético, revelando profundo domínio técnico e extraordinária riqueza simbólica.
A arqueologia africana demonstrou que importantes centros urbanos floresceram entre os povos bantos. Destaca-se especialmente: Grande Zimbábue. Entre os séculos XII e XV desenvolveu-se uma das maiores realizações arquitetônicas da África medieval. Os monumentais muros de pedra seca impressionam até hoje pela precisão construtiva. Sem utilização de argamassa, enormes blocos graníticos foram cuidadosamente encaixados, formando: muralhas; torres; recintos cerimoniais; complexos administrativos. Durante muito tempo pesquisadores europeus recusaram-se a admitir autoria africana dessas construções. Hoje não existem dúvidas sobre sua origem africana.
4. Ciência e tecnologia
As sociedades bantas desenvolveram conhecimentos científicos profundamente vinculados à observação da natureza. Entre eles destacam-se: astronomia prática; calendários agrícolas; botânica medicinal; metalurgia; hidráulica; arquitetura; zootecnia. O conhecimento era transmitido por especialistas: anciãos; curadores; ferreiros; sacerdotes; mestres artesãos. Segundo a UNESCO, tais sistemas de conhecimento constituem verdadeiras ciências tradicionais africanas.
A arte banta nunca possuía finalidade exclusivamente decorativa. Objetos artísticos expressavam: ancestralidade; poder político; espiritualidade; fertilidade; identidade coletiva. Máscaras, esculturas e objetos rituais integravam sistemas complexos de representação cosmológica. A estética encontrava-se profundamente integrada à religião e à organização social.
5. Grandes redes comerciais africanas
A partir do século XII intensificaram-se extraordinariamente as redes comerciais. Os povos bantos participavam simultaneamente de circuitos: locais; regionais; interafricanos; internacionais. Circulavam produtos como: ouro; cobre; ferro; marfim; sal; tecidos; contas de vidro; cerâmica; escravos; especiarias. O comércio integrava o interior africano às cidades suaílis do Oceano Índico.
A costa oriental africana desenvolveu intensa relação comercial com: Arábia; Pérsia; Índia; posteriormente China. Cidades como: Kilwa; Sofala; Mombaça; Zanzibar. tornaram-se importantes centros comerciais internacionais. O ouro proveniente do Grande Zimbábue alcançava mercados asiáticos através dessas rotas.
Antes mesmo da expansão portuguesa já existiam importantes redes comerciais na costa atlântica africana. Posteriormente, os contatos com Portugal ampliaram significativamente o intercâmbio. Inicialmente comercializavam-se: cobre; tecidos; cavalos; armas; marfim; ouro. Somente mais tarde o tráfico atlântico de escravos tornou-se predominante, desestruturando profundamente essas economias.
6. Formação dos grandes reinos
Entre os principais Estados bantos destacam-se: Reino do Congo; Reino do Ndongo; Império Luba; Império Lunda; Reino do Monomotapa; Grande Zimbábue. Todos apresentavam: administração política; sistemas tributários; diplomacia; forças militares organizadas; especialização econômica; produção artesanal. Segundo Bethwell Allan Ogot, esses Estados constituem expressão madura da capacidade organizacional africana.
As redes comerciais também transportavam: idiomas; religiões; tecnologias; estilos artísticos; práticas agrícolas; conhecimentos médicos. A circulação de pessoas favoreceu intenso diálogo cultural entre diferentes povos africanos. Longe de representar sociedades isoladas, os povos bantos integravam um vasto sistema continental de intercâmbio.
Conclusão
As evidências reunidas pela História Geral da África, publicada pela UNESCO, permitem rejeitar definitivamente as interpretações que durante séculos reduziram os povos bantos a sociedades economicamente rudimentares ou culturalmente periféricas. Entre os séculos XII e XVI consolidaram-se complexas formações políticas, sistemas produtivos altamente especializados, tecnologias metalúrgicas sofisticadas, expressivas realizações arquitetônicas e extensas redes comerciais que conectavam o interior da África ao Atlântico e ao Oceano Índico.
A agricultura intensiva, a pecuária, o artesanato especializado, a mineração, a metalurgia e o comércio de longa distância sustentaram economias dinâmicas e diversificadas. Paralelamente, arte, religião, ciência e organização política integravam-se em sistemas simbólicos complexos, conferindo elevada coesão às comunidades e aos grandes reinos africanos.
A reconstrução historiográfica promovida pela UNESCO demonstra que a história dos povos bantos deve ser compreendida como parte constitutiva da história universal. Reconhecer a profundidade de suas realizações econômicas, culturais e científicas representa não apenas um imperativo de justiça historiográfica, mas também condição indispensável para superar os legados epistemológicos do colonialismo e reafirmar o protagonismo africano na formação das civilizações do mundo.
Bibliografia complementar
- FAGE, J. D. (org.). História Geral da África III: África do século VII ao XI. Brasília: UNESCO; São Paulo: Cortez, 2010.
- KI-ZERBO, Joseph (org.). História Geral da África I: Metodologia e Pré-História da África. Brasília: UNESCO; São Paulo: Cortez, 2010.
- MBOKOLO, Elikia. África Negra: História e Civilizações. Salvador: EDUFBA; São Paulo: Casa das Áfricas, 2009.
- OGOT, Bethwell Allan (org.). História Geral da África V: África do século XII ao XVI. Brasília: UNESCO; São Paulo: Cortez, 2010.
- VANSINA, Jan. Paths in the Rainforests: Toward a History of Political Tradition in Equatorial Africa. Madison: University of Wisconsin Press, 1990.
- THORNTON, John K. Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400–1800. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
- COSTA E SILVA, Alberto da. A Enxada e a Lança: A África antes dos Portugueses. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.