O Ser Humano Religioso na Contemporaneidade: Diálogo Crítico entre Boas, Malinowski e Pensadores Contemporâneos

Autor: Charles Alberto Barbosa de Souza 14 Abr 2026
Antropologia Cultural Religião Pós-colonialismo Secularidade
O Ser Humano Religioso na Contemporaneidade

Neste aprofundamento o antropólogo Charles Alberto Barbosa de Souza analisa o ser humano religioso a partir das contribuições clássicas de Franz Boas e Bronislaw Malinowski, em diálogo com autores contemporâneos como Talal Asad, Charles Taylor e Achille Mbembe. Argumenta-se que a compreensão atual da religião exige uma abordagem que integre cultura, poder, subjetividade e historicidade, superando tanto o relativismo isolado quanto o funcionalismo clássico.

Introdução

A reflexão sobre o ser humano religioso, iniciada no campo da Antropologia da Religião com Boas e Malinowski, ganha novas inflexões no pensamento contemporâneo. Se os clássicos romperam com o evolucionismo1, os autores atuais enfrentam um novo desafio: compreender a religião em um mundo globalizado, pós-colonial e secularizado, mas paradoxalmente marcado por reencantamentos.

Neste contexto, torna-se necessário ampliar o debate incorporando categorias como poder, secularidade, subjetividade e colonialidade, elementos centrais nas obras de Asad, Taylor e Mbembe.

1. Religião, poder e construção histórica

Talal Asad critica diretamente a tradição antropológica clássica por tratar a religião como categoria universal e neutra.

"A religião não é uma essência universal, mas um conceito moldado por processos históricos e relações de poder"

— Talal Asad, Genealogies of Religion, 1993, p. 29

Diferente de Boas, que enfatiza o relativismo cultural, Asad introduz a dimensão do poder: para ele a definição de religião é historicamente construída; o Ocidente impôs categorias normativas ao resto do mundo; o secularismo também é uma forma de regulação da religião.

Esta abordagem trouxe impactos analíticos interessantes, porque problematiza o conceito de "religião" como dado universal; revela relações entre religião, Estado e colonialismo e amplia a crítica ao etnocentrismo boasiano2.

Religião, poder e construção histórica
A dimensão do poder na construção histórica da religião

2. Secularidade e busca de sentido

Na Antropologia da Religião, a secularidade refere-se ao processo pelo qual a religião perde centralidade institucional, tornando-se uma opção entre outras formas de sentido, como analisa Charles Taylor. Contudo, não implica desaparecimento do religioso, mas sua reconfiguração. A busca de sentido persiste como dimensão constitutiva do humano. Politicamente, favorece Estados laicos e pluralismo; economicamente, estimula mercados simbólicos e consumo espiritual; socialmente, produz identidades híbridas, individualização da fé e novas formas de pertencimento, mas também tensões culturais, fragmentação e disputas por reconhecimento no espaço público.

Charles Taylor, em sua obra sobre a modernidade, propõe uma redefinição da secularização.

"A era secular não elimina a fé, mas a torna uma opção entre muitas"

— Charles Taylor, A Secular Age, 2007, p. 3

Taylor dialoga indiretamente com Malinowski ao reconhecer que a religião continua respondendo a necessidades existenciais e que o ser humano permanece orientado pela busca de sentido. Entretanto, ele amplia o horizonte quando trabalha que a fé não desaparece, mas se pluraliza e emerge o "self" moderno, autônomo e reflexivo apresentando uma tensão constante entre imanência e transcendência.

Daí podemos discernir a sua contribuição central quando defende que a religião na modernidade não é residual, mas reconfigurada — assim sendo, o ser humano religioso torna-se um "buscador" em um mercado de sentidos.

3. Religião, colonialidade e experiência africana

Na Antropologia da Religião, a relação entre religião, colonialidade e experiência africana revela como o sagrado foi instrumentalizado por projetos coloniais, ao mesmo tempo em que se tornou espaço de resistência. Conforme Achille Mbembe, a colonialidade impôs epistemologias eurocêntricas que marginalizaram cosmologias africanas. Politicamente, isso legitimou dominação e controle; economicamente, sustentou exploração de recursos e corpos; socialmente, produziu racismo estrutural e apagamento cultural.

Religião, colonialidade e experiência africana
A experiência africana e a resistência através do sagrado

Contudo, religiões africanas e afro-diaspóricas persistem como práticas de memória, identidade e reexistência, reconfigurando o espaço público contemporâneo e afirmando novas formas de pertencimento e dignidade.

"A experiência africana exige novas categorias para pensar o humano e o sagrado"

— Achille Mbembe, On the Postcolony, 2001, p. 15

Mbembe amplia o debate ao questionar os limites das categorias ocidentais e valoriza epistemologias africanas; relaciona religião, corpo, poder e memória. Em diálogo com Boas ele radicaliza o relativismo cultural, inserindo a dimensão pós-colonial e em diálogo com Malinowski: desloca a função da religião para além do psicológico, integrando política e história.

Assim, a abordagem de Mbembe anota significativa relevância por revalorizar o papel da África na formação da espiritualidade global propondo uma leitura descolonizada do ser humano religioso.

4. Síntese crítica: para uma antropologia integrada da religião

A articulação entre esses autores permite construir uma abordagem mais robusta:

Dimensão Autor Contribuição
Cultura Boas Relativismo e pluralidade
Função Malinowski Resposta à incerteza
Poder Asad Construção histórica e política
Subjetividade Taylor Busca de sentido na modernidade
Colonialidade Mbembe Descentração epistemológica

Essa síntese revela o ser humano religioso, na perspectiva antropológica contemporânea, constitui uma realidade complexa e multidimensional. Em Franz Boas, a religião é entendida como fenômeno culturalmente situado, expressão singular de cada sociedade, recusando hierarquias evolucionistas. Em Bronislaw Malinowski, ela emerge como resposta existencial às incertezas da vida, oferecendo segurança psíquica e coesão social. Já em Talal Asad, a religião é politicamente moldada por regimes históricos de poder que definem seus limites e legitimidades. Em Charles Taylor, o sujeito religioso torna-se reflexivo, vivendo a fé como opção entre múltiplos horizontes de sentido na modernidade secular. Por fim, em Achille Mbembe, a experiência religiosa é atravessada pela colonialidade, revelando disputas epistemológicas, raciais e históricas.

Assim, o ser humano religioso é culturalmente situado, existencialmente orientado, politicamente moldado, subjetivamente reflexivo e historicamente atravessado por dinâmicas de poder e colonialidade que redefinem continuamente o sagrado na modernidade global.

O ser humano religioso na modernidade
Novas formas de espiritualidade na modernidade global

5. Implicações para a atualidade brasileira

O contexto religioso brasileiro contemporâneo evidencia uma complexa articulação entre pluralismo, identidade e poder. O pluralismo religioso confirma a leitura de Boas ao demonstrar que a religião é culturalmente situada e historicamente plural, especialmente no convívio entre catolicismo, pentecostalismos e religiões afro-brasileiras. A busca por segurança existencial e proteção cotidiana reforça Malinowski, pois práticas religiosas funcionam como dispositivos simbólicos de enfrentamento da incerteza social.

As disputas religiosas e políticas de legitimação expõem, conforme Asad, que a religião é também campo de poder e normatividade. Ao mesmo tempo, a espiritualidade individualizada, marcada por escolhas subjetivas e bricolagens de crença, confirma Taylor. Já as religiões afro-brasileiras, atravessadas pela memória da escravidão e pela colonialidade, dialogam criticamente com Mbembe, revelando resistências e reinvenções culturais.

Nesse cenário, o Brasil configura-se como laboratório antropológico onde coexistem racionalidades diversas, tensionando tradição e modernidade e promovendo a emergência de novas formas híbridas de espiritualidade, marcadas por negociação contínua entre fé, identidade e sociedade.

Conclusão

O diálogo entre Franz Boas, Bronislaw Malinowski, Talal Asad, Charles Taylor e Achille Mbembe permite superar reducionismos e construir uma compreensão mais complexa do ser humano religioso. Na contemporaneidade, a religião não desaparece: ela se transforma, se desloca e se reinventa.

O ser humano religioso emerge, assim, como um sujeito: plural, crítico, situado e profundamente engajado na construção de sentido.

Bibliografia complementar

  • ASAD, Talal. Genealogies of Religion. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1993.
  • TAYLOR, Charles. A Secular Age. Cambridge: Harvard University Press, 2007.
  • MBEMBE, Achille. On the Postcolony. Berkeley: University of California Press, 2001.
  • MBEMBE, Achille. Critique of Black Reason. Durham: Duke University Press, 2017.

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